Síndrome de Capitão Gancho e o primado do perdão

Você sabia que no livro “Peter Pan” de J. M. Barrie o Capitão Gancho é descrito como cristão?

Na verdade, o autor especifica que Gancho e todos os seus piratas são protestantes com a exceção de um: “o imediato irlandês Barrica, um homem estranhamente simpático que esfaqueava sem querer ofender, digamos assim, e que era o único membro da tripulação de Gancho que não pertencia à Igreja Anglicana” (BARRIE, J.M. Peter Pan. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p.86).

Entendo que sofrem de “Síndrome de Capitão Gancho” todas as pessoas que não saem da Terra do Nunca por causa da fixação em se vingar dos outros. Gancho que não zarpa da ilha enquanto não se vingar de Peter Pan que lhe arrancou a mão. E há pessoas assim: com a vida travada e expectativas imobilizadas por causa de memórias amargas. Muitos se afirmam legítimos seguidores de Cristo, mas vivem de pavio curto, manifestam uma índole intolerante, ficam ancorados em rancores desbotados.

O pastor Martin Luther King Jr disse: “ou aprendemos a conviver ou morreremos como animais”. O apóstolo Paulo disse que a ira tem prazo de validade. Uma santa e justa indignação tem potencial de sair do trilho e se tornar violência, agressão, estupidez. Por isso a recomendação enfática: “Quando vocês ficarem irados, não pequem. Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha, e não deem lugar ao diabo” (Efésios 4.26,27). Henry Bohn disse: “A ira começa com insensatez e termina com arrependimento”.

A maior demonstração de poder está em dominar a si e não aos outros: “Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade!” (Provérbios 16.32); “como cidade derrubada, que não tem muros, assim é o homem que não pode conter o seu espírito” (Provérbios 25.28). Portanto, “sejam prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tiago 1.19).

Perdoar é uma necessidade urgente, prioritária. Jesus afirmou que a ira não só destrói relacionamentos, mas também atrapalha nossa espiritualidade, testemunho e devoção a Deus: “Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta” (Mateus 5.23-24). Primeiramente, perdão.

Amadureça, abandone a Terra do Nunca, deixe de ser Capitão James Gancho e pare de procurar vingança de quem decepou sua mão. Jesus disse: “e se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno” (Mateus 5.30). O remédio é buscar a reconciliação. O maior mandamento é amar a Deus, o segundo é amar o próximo como a nós mesmos. O tempo pode atenuar a raiva, mas não pode apagar ofensas, é importante pedir perdão a quem ofendemos e perdoar quem nos ofendeu. Não buscar reconciliação é destruir a ponte onde precisamos andar. Como afirma Provérbios 19.11: “A sabedoria do homem lhe dá paciência; sua glória é ignorar as ofensas”.

Perdoe primeiro, porque só então você poderá orar cada palavra com intensidade e verdade: “Perdoa as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livra-nos do mal, porque teu é o Reino, o poder e glória para sempre. Amém”.

 

Pr. Davi Pereira do Lago

São Paulo, Brasil.

 

 

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