Plante de manhã a tua semente e não cruze os braços a tarde

De: Davi Lago

Para: Você.

 

 

 

Meu bem,

 

se existe uma conclusão inquestionável acerca da vida é esta: Nem sempre colhemos o que plantamos. A “lei da semeadura e da colheita” é comprovadamente uma lei falível.

 

Mas repare bem no que eu disse: “NEM SEMPRE COLHEMOS”.  Ou seja, via de regra colhemos sim aquilo que plantamos. Ser “falível” significa ser “passível de falhar”; não “falhar sempre”.

 

O momento da semeadura pode ser difícil, mas em termos gerais, a colheita sempre vem: “Aqueles que semeiam com lágrimas, com cantos de alegria colherão. Aquele que sai chorando enquanto lança a semente, voltará com cantos de alegria, trazendo os seus feixes” (Salmo 126.5-6). Claro que a colheita pode dar errado, como está escrito na própria Bíblia: “Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos” (Eclesiastes 9.11). Ou seja: podemos plantar e faltar chuva. Podemos plantar e a semente ficar doente. A colheita pode vingar, mesmo assim, podemos morrer antes de vê-la. Pior: podemos plantar, colher e alguém roubar os frutos: “a lavoura do pobre produz alimento com fartura, mas por falta de justiça ele o perde” (Provérbios 13.23).

 

Não há dúvidas, colheitas podem falhar. A vida é cheia de incertezas: “Os velozes nem sempre vencem a corrida”. Um corredor pode se preparar com muito zelo e ainda assim ser injustiçado na competição. Foi o que aconteceu com o brasileiro Vanderlei Cardoso que vencia a maratona da olimpíada de Atenas em 2004 quando foi surpreendido por um manifestante sedento por fama que o abraçou e empurrou para fora do caminho. Vanderlei, perdeu o ritmo, a posição, mas não desistiu: recuperou-se e conquistou a medalha de bronze. Assim como aconteceu com Vanderlei acontece com todos nós em uma medida ou outra, praticamente todo o tempo. Todos nós sofremos injustiças. Mas, também há surpresas boas. No pódio, Vanderlei foi novamente surpreendido – desta vez positivamente – com a medalha Pierre de Coubertin, a honraria máxima concedida pelo Comitê Olímpico Internacional em reconhecimento ao mérito esportivo-humanitário. A vida é assim, cheia de incertezas, boas e ruins.

 

Contudo, a despeito das incertezas, é sempre melhor plantar. Sempre! Não é porque a colheita pode falhar que não iremos semear. Apesar de não existirem garantias absolutas, sempre será melhor plantar! Vale a pena correr o risco. Devemos plantar muitas sementes, boas sementes. Está escrito: “Plante de manhã a sua semente, e mesmo ao entardecer não deixe as suas mãos ficarem à toa, pois você não sabe o que acontecerá, se esta ou aquela produzirá, ou se as duas serão igualmente boas” (Eclesiastes 11.6).

 

A realidade se impõe! Plantar é necessário! Mas parece que há gente que se esquece disso… existe quem pense não ser necessário semear ou que qualquer semente serve…

 

Meu bem, temos que rever isso em nossas próprias vidas. Plantar e colher é algo elementar na natureza, nos relacionamentos, na família, no amor, no desempenho de nossos afazeres.

 

Tudo é semente! Não apenas as sementes vegetais ou o sêmen animal. Tudo é semente: nossos elogios, reclamações, comentários, e-mails, telefonemas, cumprimentos, acolhidas, beijos, abraços, olhares… tudo é semente. Algumas caem em solo bom, outras em solo infértil, pedregoso, árido. As sementes que lançamos revelam que tipo de caráter possuímos. Nossas sementes refletem nossas convicções, expectativas, visão de mundo.

 

Ser alguém disposto a plantar boas sementes não tem nada a ver com ser alguém interesseiro. Atenção! Plantar não se resume a ter expectativas de retribuição! Normalmente esta é a principal lição que lembramos quando ouvimos sobre “semear e colher”: A lição do retorno. Se a colheita der certo, colheremos o mesmo gênero daquilo que plantamos. É uma constatação elementar sobre plantações: crianças entendem com muita facilidade que se colhe uvas de videiras, maçãs de macieiras, etc. Aprendamos esta lição básica: Somos livres para semear o que quisermos, mas caso a colheita vingue, seremos obrigados a colher aquilo que semeamos. Quando semeamos em nosso terreno aprendemos o valor de plantarmos boas sementes: nós mesmos colheremos o resultado. Boas sementes nos retornarão frutos doces.

 

No entanto, o ato de semear é poderosamente pedagógico e vai muito além de uma concepção mecanicista de causa-efeito. Em si mesmo, o ato de semear nos ensina outras lições bonitas, sensatas, úteis e urgentes:

 

A lição da atitude: Uma semeadura pode não vingar por causa de nevascas, geadas, pragas, etc. Contudo, quem não planta dificilmente colherá, pois dependerá de alguém que plante por ela: seja um passarinho, seja um benfeitor. Quem não semeia está à mercê da generosidade alheia – uma situação perigosa. Quem não semeia revela uma atitude preguiçosa: “O preguiçoso não ara a terra na estação própria; mas na época da colheita procura, e não acha nada” (Provérbios 20.4). É necessário agir na vida. As coisas não ficam prontas sozinhas, não podemos ficar apenas olhando o além: “Quem fica observando o vento não plantará, e quem fica olhando para as nuvens não colherá” (Eclesiastes 11.4).

 

A lição do desprendimento: Para ganhar os frutos em uma colheita é preciso antes abrir mão da semente. Não podemos acumular apenas, é necessário semear, ser desapegado, matar sementes, para que brote muita vida. Jesus disse: “se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto” (João 12.24). Não é saudável nem ser avarento, materialista, egoísta, rancoroso, e nem ser pródigo, esbanjador, gastador, bobo-alegre. É melhor ser prudente, equilibrado. Entender que há hora de reter, juntar a colheita, e hora de semear novamente, abrir mão, investir, perdoar, manifestar misericórdia.

 

A lição da multiplicação: A partir de uma única semente podemos colher numerosos frutos. De uma única semente, pode nascer um jardim inteiro. Sementes tem efeitos multiplicadores. Quando semeamos aprendemos sobre os efeitos exponenciais que uma semente carrega em si: seja a semente boa ou má. Uma semente de amargura que se estabelece e cria raízes, irá gerar frutos podres que contaminarão muitas pessoas. Que possamos semear as coisas boas, para multiplicarmos vida, não tristeza. Semeemos pequenas palavras de benquerença, gratidão, pequenos gestos de carinho como esperar a pessoa amada para o almoço, servir um copo de água. São gestos tão simples, com um efeito multiplicador tão majestoso.

 

A lição da transparência: A semeadura pode ser secreta, mas a colheita é pública. É possível semear escondido, mas quando a colheita surge ela é visível a todos no campo. É uma das deduções da parábola do trigo e do joio contada por Jesus. Que possamos semear sempre as boas sementes. Há muita coisa que fazemos em oculto, que em seu tempo, vem ao conhecimento de todos. Que possamos semear sempre as sementes do bem, mesmo se não estivermos sendo vigiados. Caráter é quem nós somos no escuro.

 

A lição da paciência: Colhemos em uma estação diferente da que plantamos. Plantar e colher tem a ver com o passar do tempo. “Vejam como o agricultor aguarda que a terra produza a preciosa colheita e como espera com paciência até virem as chuvas do outono e da primavera” (Tiago 5.7). Aquele que semeia aprende a minorar a ansiedade e desenvolver a longanimidade, a calma, a serenidade.

 

A lição da fé: Semear e colher podem ser símbolos da pessoa de fé. O indivíduo pode lavrar a terra, escolher as melhores sementes, cavar, plantar, regar, proteger o terreno, combater as pragas. Ainda assim, corre riscos e depende de fatores que não estão sob seu controle. Por isso, a importância da fé: o plantador de algum modo “crê” que as coisas correrão bem. Além das lições importantes válidas para nossa vida terrena, as plantações nos ensinam sobre valores espirituais. Na terra, as plantações não têm garantias absolutas. Apesar da natureza oferecer evidências razoáveis ao agricultor, ela não oferece garantias absolutas. Sempre será uma aventura plantar.

 

Assim é a aventura da fé.

 

O evangelho de Jesus me apresenta evidências razoáveis, mas é certamente uma questão de fé. Segundo a Bíblia, sem fé é impossível agradar a Deus. Mas não é “fé na fé”, crer por crer. É crer em Jesus Cristo.

 

Nunca vi Deus, mas creio Nele. Percebo evidências de sua existência na criação, na moralidade humana, na aspiração pelo belo, no anseio pelo eterno. Outras pessoas olham as mesmas evidências e preferem crer que são acaso, carência psicológica, contingência histórico-social. Eu creio que é o Deus Criador, ao meu entender faz mais sentido. Portanto, cri em Deus. Mas quando comecei a ler o evangelho de Jesus Cristo, meu coração ardeu de modo indizível. Cri e o recebi em meu coração. Sei que era cego, e agora vejo. Não compreendo tudo, sei que não compreenderei, mas uma coisa sei, eu amo Jesus Cristo. Ele habita em mim, quero sempre habitar Nele. Uma coisa faço, prossigo para o alvo.

 

Posteriormente examinei os relatos de sua ressurreição, a credibilidade da Escritura, a complexidade de sua doutrina que não deixa de ser simultaneamente simples, bem como a coerência da cosmovisão bíblica que não fecha o espaço para o mistério, o indecifrável e o incompreensível. Afinal, quem pode sondar os arcanos do Todo-Poderoso? Examinei as consequências no fluxo tempo-espaço de todos seus ensinamentos, verificando seus prodigiosos efeitos sobre a humanidade. Nessa aventura da fé, também percebi uma garantia interna: o Espírito Santo que é penhor, selo, garantia. Ele testifica em meu espírito que sou filho de Deus, criado em Cristo Jesus.

 

No mais, a Escritura não nos mostra um caminho fácil na vida, mas uma chegada segura à presença de Deus. Nessa aventura da existência tenho apenas uma certeza: que Deus me ama e por sua misericórdia me salvou em Jesus Cristo. “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna” (Gálatas 6.7-8). Sei em quem tenho crido, sei que meu Redentor vive.

 

Na vida natural e espiritual existe possibilidade e necessidade de semeadura e colheita. Em ambas há evidências que apoiem a decisão de semear, em ambas existe um risco, em ambas há expectativa e esperança na colheita. A diferença é que na vida natural os riscos são temporais, na espiritual, eternos. A outra diferença é que crendo em Jesus, a colheita espiritual se inicia de imediato com frutos de arrependimento e vai crescendo em quantidade e qualidade em fruto do Espírito com paz, amor, alegria, bondade, benignidade, misericórdia, mansidão, fidelidade, domínio próprio. A colheita espiritual farta nossa vida já nessa terra, não é apenas uma promessa para a eternidade.

 

Um homem chamado Habacuque vivenciou isso, por isso pode dizer: “Mesmo não florescendo a figueira, e não havendo uvas nas videiras, mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral, nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação. O SENHOR, o Soberano, é a minha força” (Habacuque 3.17-19a).

 

Meu bem, eu e você somos hoje a colheita de ações, omissões, reações, decisões, nossas e de outras pessoas. Tudo é semente e tudo é colheita. Somente Deus é o que É. Somente Ele! O mais, todo o mais, é semente e colheita. Portanto, vamos semear com as sementes certas. As flores de amanhã estão nas sementes de hoje.

 

Lavro e dou fé,

 

Seu amigo,

 

Davi Lago.

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