Mensagem de Davi Lago no TST – Tribunal Superior do Trabalho

 

Mensagem aos servidores da Justiça Trabalhista

 

 

Proferida no Culto Inaugural no Tribunal Superior do Trabalho

Brasília, DF, dia 13 de março de 2015

 

Por Davi Pereira do Lago

 

 

 

“Vede! O salário dos trabalhadores que ceifaram vossos campos, e que por vós foi retido com fraude, está clamando. Os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor Todo-Poderoso” (Tiago 5.4).

 

O texto afirma que há um clamor por justiça.

 

Os trabalhadores ceifaram os campos, cumpriram o dever: empunharam foices, golpearam a seara, recolheram os mantimentos. Estão cansados, talvez exaustos. Existem calos nas mãos, bolhas nos pés, suor por todo corpo, mas um alento no coração: a expectativa de receber o pagamento.

 

Fizeram o devido perante seus patrões e foram receber o que mereciam. Contudo, veio a má notícia: não haveria pagamento.

 

É um grande contraste: enquanto os trabalhadores não têm posses, os patrões têm vastos campos.

 

É uma grande ironia: os trabalhadores ajuntaram os mantimentos para seus senhores e eles mesmos não têm o que comer.

 

Começa então o clamor. Um clamor agonizante, gemido, gritado. É gente muito pobre clamando por justiça. Gente indefesa e encurralada.

 

O texto bíblico afirma que há um clamor por justiça. Esse clamor pode ser ouvido aqui no Tribunal Superior do Trabalho. Aqui podemos ler, ver, ouvir, tocar, respirar a angústia de muitas pessoas de toda a nação. Queixumes de toda parte reverberam aqui e não param aqui: eles chegam aos ouvidos de Deus.

 

O texto apresenta três informações:

 

Primeiro, Deus se importa com a causa do trabalhador.

 

Esse é um dado certo nas Escrituras. No Antigo Testamento está registrada, por exemplo, a seguinte ordem aos patrões acerca do pagamento de seus empregados: “No mesmo dia lhe pagarás o seu salário, para que o sol não se ponha sobre a dívida, pois ele é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado” (Deuteronômio 24.15).

 

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo orienta: “Vós, senhores, dai a vossos servos o que é de justiça e equidade, sabendo que também vós tendes um Senhor nos céus” (Colossenses 4.1).

 

Ou seja, existe uma evidente preocupação com a justiça trabalhista. O profeta Jeremias chegou a dizer: “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça e os seus aposentos, sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem paga, e não lhe dá o salário do seu trabalho” (Jeremias 22.13)[1].

 

Segundo, Deus ouve o clamor dos trabalhadores injustiçados.

 

Muitos patrões exploradores pensam que os pobres não têm um protetor. Mas a Escritura afirma que Deus não apenas se importa com os explorados, ele também ouve o clamor deles.

 

Deus disse ao assassino Caim: “Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” (Gênesis 4.10). Assim como o sangue do inocente Abel clama da terra e chega a Deus, o clamor dos trabalhadores injustiçados também alcança o Altíssimo. Não faltam exemplos bíblicos: “Os filhos de Israel gemiam sob a servidão e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus” (Êxodo 2.23). No livro de Jó, Eliú afirma: “Fizeram que o clamor do pobre subisse até ele, de sorte que ouviu o clamor dos aflitos” (Jó 34.28). O Salmo 9.12 afirma que Deus “não se esquece do clamor dos aflitos”.

 

Terceiro, Deus é o Senhor Todo-Poderoso.

 

O mesmo Deus que se importa e ouve o clamor dos trabalhadores violados, é o Deus que criou e governa todas as coisas, é o Deus que têm todo o poder em suas mãos.

 

Apesar de ser frequente no Antigo Testamento, no Novo a expressão aqui traduzida do grego como “Todo-Poderoso” aparece apenas nesta passagem[2]. Ao salientar este aspecto divino Tiago aponta o teor solene de sua advertência.

 

Jesus contou uma parábola sobre um juiz iníquo: “Havia numa cidade certo juiz que não temia a Deus nem respeitava o homem. Havia também naquela mesma cidade certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário. Por algum tempo não quis atendê-la. Depois, porém, disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens, todavia, como esta viúva me aborrece, hei de fazer-lhe justiça para que enfim não volte, e me perturbe muito”.

 

Após contar a história, Jesus Cristo disse: “Ouvi o que diz o injusto juiz. Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que os faça esperar?” (Lucas 18.7).

 

Se até um magistrado perverso atende o pedido do sofrido, mesmo que seja com a motivação de simplesmente se livrar da reclamação, que se dirá de Deus que se importa do modo mais profundo com a tristeza do desamparado?

 

Baseado nessa breve reflexão gostaria de apontar três aplicações a todos que servem na justiça trabalhista:

 

  1. Servidores, mantenham a perspectiva devida à sua função neste Tribunal.

 

Não permitam que a rotina diária desgaste a elevada e nobre tarefa que vocês cumprem aqui. O próprio Deus afirma reiteradamente em sua Palavra o valor da Justiça do Trabalho.

 

Saibam que vocês podem ser instrumentos de Deus nesta terra ao ajudar os pobres, aflitos que clamam por socorro. Aqui vocês servem a uma só vez: a Nação, a Justiça, a Humanidade e a Deus.

 

Certo dia, um homem andava pelas ruas de sua cidade. Enquanto caminhava viu algumas crianças jogadas na calçada, descalças, pedindo esmolas. Indignado, o homem começou a questionar Deus. Ele disse:

– Deus! Por que você não faz nada para ajudar essas crianças? Por que fica parado ai em cima e não faz absolutamente nada para salvar esses pobres meninos?

 

Deus, então, respondeu:

– Eu fiz algo por essas crianças. Eu fiz você.

 

Servidor, você é a resposta de Deus para muitas pessoas. “Servidor”, aliás, é um bom título, assim como “ministro”, que significa “servo”. Somos todos servos de Deus a favor das pessoas. Conforme Romanos 13.6, “as autoridades são ministros de Deus, sempre dedicadas a esse”.

 

Todas as coisas são para a glória de Deus! “Quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1Coríntios 10.31). O ser humano não foi feito para ser adorado, ele não tem estrutura para receber adoração. Somente Deus é digno de receber honra, glória e louvor. Você pode ignorar Deus, mas não pode se esconder dele. Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas.

 

  1. Servidores, além da perspectiva correta à função, mantenham a perspectiva correta em relação ao seu desempenho neste Tribunal.

 

Conversando com alguns de vocês, ouvi a queixa: “a Justiça do Trabalho cuida dos de fora, mas não se importa com os de dentro”.

 

Que isso não seja verdade. Cuidem uns dos outros. Sejam promotores da paz interna. Que vocês possam ser os primeiros no serviço com alegria. Que Deus abençoe este Tribunal. Que Deus abençoe a família de cada um. Que Deus abençoe o coração de cada um. Este é um culto inaugural, portanto, que comece um ano de trabalho maravilhoso.

 

Que Deus renove as forças de todos. Para longe a preguiça, a indolência, o comodismo. Certo homem disse: “meu pai trabalhou tanto que eu já nasci cansado”. Outro falou: “a preguiça é o melhor dos sete pecados capitais. Ela me impede de cometer os outros”. Longe daqui o espírito covarde e a atitude de pouco-caso. Que Deus inflame o coração de vocês!

 

Sejam famintos pela justiça. Como disse Jesus: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos” (Mateus 5.6). Se vocês realmente amarem a Deus, vocês amarão o que ele ama. Vocês amarão a justiça em todas as suas manifestações. A História registra a sede por justiça de William Wilberforce, um político competente, homem devoto a Deus, que lutou no parlamento inglês e foi a peça-chave na abolição da escravidão. A História registra a sede por justiça de Martin Luther King Jr., um pastor batista, ativista social, que corajosamente combateu práticas racistas, preconceituosas, desumanas e conquistou direitos civis nos Estados Unidos.

 

Servidores, sejam famintos e sedentos por justiça. Vocês serão bem-aventurados.

 

  1. Por fim: Servidores, pensem em Jesus.

 

Vocês querem saber como é Deus? Como ele age? Como ele reage? Como ele pensa? Simples: olhem para Jesus Cristo. Jesus é Deus, e Deus conosco.

 

Jesus compreende cada aspecto deste Tribunal.

 

Jesus conhece de perto o trabalho, não só porque se relacionou com todo tipo de trabalhador, mas porque ele mesmo foi um trabalhador, um carpinteiro como seu pai José.

 

Jesus conhece de perto a injustiça, não só porque habitou em meio à gente sofrida, mas porque ele mesmo foi injustamente condenado a morte.

 

Jesus conhece de perto o clamor dos oprimidos, não só porque ouviu inúmeros pedidos de socorro por toda parte, mas porque ele mesmo gritou por socorro na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.

 

Jesus conhece de perto o poder da competência, porque ele mesmo fazia “tudo muito bem” (Marcos 7.37).

 

Mantenham o coração em Jesus: ele é a misericórdia de Deus sobre nós. No sentido último da existência todos nós somos pecadores, falhos, errados. Podemos ser inocentes na Justiça do Trabalho, mas todos nós somos culpados espiritualmente. Todos nós somos rebeldes contra nosso Criador. Mas há um remédio: a fé em Jesus Cristo.

 

Assim como o clamor dos trabalhadores explorados clama por justiça, assim o coração de Deus clama por justiça. Assim como milhares de processos tramitam no Tribunal, com pessoas exigindo justiça, Deus exige justiça para os seres humanos. Assim como pessoas violaram leis trabalhistas e merecem ser punidas, os seres humanos merecem a punição pelos seus pecados e desobediência espiritual.

 

Mas aqui haverá uma diferença: O próprio Deus, por seu amor e misericórdia estabeleceu um modo de vencermos nossa merecida punição. Jesus morreu no nosso lugar, para que pudéssemos ser salvos da condenação eterna. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).

 

A Escritura apresenta essa verdade de várias formas. O próprio Jesus utilizou diferentes ilustrações, metáforas e parábolas para explicar essa mesma verdade. E uma dessas formas foi uma parábola relacionada a uma causa trabalhista.

 

Jesus contou uma parábola na qual o proprietário de uma vinha contratou alguns empregados: chamou alguns pela manhã, outros a tarde, outros no fim da tarde. Ao fim do dia, deu o mesmo salário para todos. Os que trabalharam pela manhã ficaram indignados e questionaram a atitude do patrão. Essa é nossa inclinação: inveja, rivalidade, inconformismo em ver outras pessoas serem agraciadas, ao invés de nos alegramos com a vitória do outro. Na verdade não há injustiça alguma na atitude do dono da vinha. Ele combinou um preço com os trabalhadores que chegaram pela manhã e cumpriu o combinado pagando o salário. Na verdade, não há injustiça, há generosidade, graça, bondade. O patrão simplesmente quis beneficiar os trabalhadores que chegaram mais tarde. Com essa história, Jesus destrói nosso sistema de méritos. A parábola encerra-se com o provérbio-enigma “os últimos serão os primeiros”. Ou seja, há um empate. Somos todos iguais diante de Deus. Nenhum de nós é melhor do que o outro. Somos falhos e carecemos da misericórdia de Deus.

 

Servidores, lembrem-se de Jesus. Ele é a misericórdia de Deus.

[1] Cf. Levítico 19.13; Malaquias 3.5.

[2] A expressão também aparece em Romanos 9.29 mas como uma citação do Profeta Isaías.

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