A Igreja descalça

A Igreja descalça

Minha infância era igreja. Andava descalço dentro do templo. Sabia que não era templo. Já entendia que era apenas um galpão e que a igreja eram as pessoas. Mas eu gostava de ficar lá. Eu olhava as cadeiras de plástico. Eu olhava as pessoas felizes no mutirão. Limpando aquelas cadeiras, esfregando o chão. Eu olhava meu pai feliz. E eu também ficava. Depois todos saiam, mas eu ficava lá. Erguia a cabeça e via as telhas. Algumas eram transparentes. Era um galpão simples. Mas a igreja se reunia ali. Era um lugar sagrado. Ficava no silêncio sozinho. Sentava no banco do baterista. Imaginava-me tocando bateria no culto. Pegava duas canetas e fingia ser baterista. A bateria não tinha os pratos. Estavam guardados. Mexia nos botões da mesa de som e dos amplificadores. Depois colocava os botões nas posições exatas que estavam antes. Depois ficava atrás do púlpito. Não tinha altura suficiente. Ninguém...