Arrependimento: a cura da infidelidade [Prédica na Primeira Igreja Batista de São Paulo]

Arrependimento: a cura da infidelidade

 

Sermão pregado por

 

Davi Pereira do Lago

 

no púlpito da Primeira Igreja Batista de São Paulo

na noite do Dia do Senhor de 6 de agosto de 2017

 

 

 

 

 

Eu curarei a infidelidade deles e os amarei de todo o meu coração,

pois a minha ira desviou-se deles

Oséias 14.4

 

 

Há pessoas que se arrependem tarde. O pastor Martin Niemöller afirmou aflito após o término da Segunda Guerra Mundial: “Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.

 

Na mesma linha foi a chamada “Declaração de Stuttgart” de 19 de outubro de 1945 onde outros pastores afirmaram: “Acusamos a nós mesmo por não termos confessado mais corajosamente, não termos orado mais fielmente, não termos crido com mais alegria e não termos amado mais ardentemente”. Infelizmente são palavras fáceis, palavras tardias, palavras inúteis para milhões de pessoas que foram brutalmente assassinadas nos campos de concentração nazistas.

 

Este é o problema de muitos: são contaminados pela bactéria da negligência. É necessário se arrepender enquanto é tempo! Arrependimento é sempre urgente, para hoje, para agora! João Batista anunciou: “Arrependam-se!”. Esta foi a primeira pregação de Jesus Cristo: “Arrependam-se e crede no evangelho! É chegado o Reino dos Céus” (Mc 1.15). Arrependimento será sempre uma mensagem decisiva. R.C. Sproul afirmou que “ninguém que negue o arrependimento poderá entrar no reino de Deus. Arrependimento é um pré-requisito, uma condição necessária para a salvação”[1]. Sabemos que arrependimento é mudança de mente, de postura completa na vida, é o resultado de um coração que foi regenerado por Jesus Cristo, é o modo de viver do verdadeiro cristão.

 

Na casa de Mateus Jesus estava à mesa com cobradores de impostos e pecadores. Os fariseus escarneceram, a roda dos escarnecedores é a roda dos fariseus hipócritas, aqueles que zombam de Jesus. Eles perguntaram aos discípulos: “Por que o seu mestre come com cobradores de impostos e pecadores?”. Jesus ouviu o que disseram e respondeu: “As pessoas saudáveis não precisam de médicos, mas sim os doentes”. E acrescentou: “Agora vão e aprendam o significado desta passagem das Escrituras: ‘Quero que demonstrem misericórdia, e não que ofereçam sacrifícios’. Pois não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mt 9.12-13).

 

Jesus, o Médico, veio chamar os doentes, curar os doentes. Jesus mandou os fariseus estudarem o profeta Oséias! “Eu curarei a infidelidade deles e os amarei de todo o meu coração, pois a minha ira desviou-se deles” afirma a profecia! Oséias recebeu a Palavra do Senhor que o mandou se casar com uma prostituta. A profecia de Oséias é dura. A missão de Oséias foi difícil. Ele se casou com Gômer, mulher promíscua e infiel. A profecia revela a dor do coração de Deus com a infidelidade de seu povo. Infidelidade que é tratada em termos de enfermidade, doença repugnante. Contudo, ao final de Oséias não encontramos um juízo impiedoso! Somos surpreendidos com um convite amoroso, misericordioso: “Volte, ó Israel, para o SENHOR seu Deus!” (Os 14.1). O caminho do arrependimento é o caminho para a cura da infidelidade. Arrependimento é retornar ao SENHOR!

I. Arrependimento começa com a compreensão de que Deus é são.

 

É difícil perceber algo são hoje. O poeta Fernando Pessoa já havia dito que “os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são”[2]. Arrependimento é justamente perceber que Deus é são, que Deus é Santo. Deus é o único Santo. Para entender o que significa “arrependimento” é necessário entender o que é “pecado”; e para entendermos o que significa “pecado” precisamos ver quem é Deus! O evangelho é o único modo de vermos a Deus! “Pois Deus que disse: ‘Das trevas resplandeça a luz’, ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2Co 4.6).

 

Ver a glória de Deus: isto é o evangelho. Somente o evangelho de Jesus pode revelar como Deus é glorioso! Deus é precioso para nós porque o evangelho tirou o véu de nossos olhos. Podemos ver a glória do Cristo crucificado, vislumbramos a preciosidade de Deus. Ele é nosso tesouro, ele é doce, é puro, é Deus! A visão divinal de Cristo relativiza todas as outras coisas. Compreendemos como Deus é poderoso, nos curvamos ante sua majestade e autoridade.

 

O evangelho nos faz perceber como são justos os decretos e ordenanças de Deus. Os Dez Mandamentos expressam a santidade de Deus. Não terás outros deuses além de mim; não farão para si imagens de esculturas; não dirão o nome santo de Deus em vão; guardarás o Dia do Senhor; honrarás pai e mãe; não matarás; não roubarás; não adulterarás; não dirás falso testemunho; não cobiçarás, tudo isso expressa a santidade e caráter de Deus. Afastar-se das ordenanças de Deus é caminhar para a impureza, para a maldade. E é justamente isso que fizemos ao pecar: saímos do nosso lugar ao lado de Deus e preferimos trilhar um caminho inútil.

 

Deus perguntou: “Adão, ser humano, onde estás?”. Ele não perguntou: “Onde estão os frutos?”. Deus se importa com as pessoas, ele se importa conosco! Ele obviamente não perguntou porque não soubesse onde Adão estava, para Deus todas as coisas são patentes, ele é onividente, tudo vê, tudo sabe. Ele perguntou para que nós percebêssemos de modo nítido: não estamos onde deveríamos estar! “Volte, ó Israel, para o SENHOR, para o seu Deus”.

 

II. Arrependimento é a compreensão inequívoca de que o pecado é uma doença repugnante.

 

“Volte, ó Israel, para o Senhor, para o seu Deus. Seus pecados causaram sua queda! Preparem o que vão dizer e voltem para o Senhor. Peçam-lhe: “Perdoa todos os nossos pecados e, por misericórdia, recebe-nos, para que te ofereçamos o fruto dos nossos lábios” (Os 14.1-2). A visão da santidade de Deus nos esclarece acerca de nosso pecado. O profeta Oséias afirma: “seus pecados causaram sua queda!”. Precisamos retornar a Deus, estamos caídos, quedados pelo pecado.

 

Pecado é toda transgressão a lei de Deus. “O pecado é a transgressão da lei” (1Jo 3.4). É tudo aquilo que faço que extrapola os limites estabelecidos por Deus. Contudo, como visto no início desta prédica, podemos pecar também por omissão, como fizeram aqueles cristãos na Alemanha nazista. Os sujeitos não ofenderam ninguém, mas por outro lado, omitiram sua voz contra as injustiças. Por isso está escrito que “aquele que sabe o bem que deve fazer e não o faz, comete pecado” (Tg 4.17). Não cumprir os votos feitos diante de Deus é pecado (Dt 23.21), viver sem fé é pecado (Rm 14.23).

 

Ocorre que muitas pessoas se armam e pensam: “isso não é para mim! Não sou uma pessoa tão má assim! Eu já sofro tanto na vida e agora estão dizendo que eu ainda sou pecador!”. Exatamente: você é um pecador. Como está escrito: “Não há nenhum justo, nem um sequer” (Rm 3.10). João Calvino disse: “devemos examinar imediatamente nossa vida pregressa, pois ao fazê-lo, certamente descobriremos que merecemos a disciplina que temos recebido”[3].

 

Talvez você se considere bom, uma pessoa boa, de boa índole. Talvez você sempre culpe os outros pelos seus fracassos: você nunca tem culpa de nada. Sinto muito, mas você é um pecador. Pare de divinizar seus afetos, sua fama, seu futuro. Você quer sempre um lugar importante na sociedade ou no coração dos outros. É alguém possessivo, que vive granjeando simpatias das pessoas. Tem medo de não ser aceito. Perde amigos por causa de dinheiro. Como no fundo só busca a própria glória, não tolera críticas, jamais aceita correções. Pensa ser Deus, mas é apenas mais um parecido com Lúcifer.

 

Não “bagatelize” os fatos, não menospreze a realidade: arrependa-se! Não seja como a nação de Israel, que esperava respostas do império assírio, que confiava na própria força, nos próprios ídolos. Ouça Deus: “A Assíria não nos pode salvar; não montaremos cavalos de guerra. Nunca mais diremos: ‘Nossos deuses’ àquilo que as nossas próprias mãos fizeram, porque tu amas o órfão. Eu curarei a infidelidade deles e os amarei de todo o meu coração, pois a minha ira desviou-se deles” (Os 14.3-4). Pare de confiar em ídolos! Volte, ó Israel, ao SENHOR, o seu Deus.

 

Não dramatize de modo apóstata. Não diga “não tem jeito mesmo”. Muitos se escondem atrás da ladainha: “cristãos são imperfeitos, cristãos são hipócritas, logo não devo ser cristão”. Cristo é perfeito! Jesus Cristo é a verdade. Cristo morreu pelos nossos pecados, pela nossa cura e salvação: “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito” (1 Pe 3.18). O evangelho produz uma contrição salvadora, uma tristeza que leva à vida e verdadeira alegria. O evangelho é maravilhosa notícia que a vida pode começar de novo!

 

III. Arrependimento é uma cura operada por Deus.

 

É uma cura que vem de Deus! O arrependimento acarreta promessas maravilhosas da parte de Deus: “Eu curarei a infidelidade deles e os amarei de todo o meu coração, pois a minha ira desviou-se deles. Serei como orvalho para Israel; ele florescerá como o lírio. Como o cedro do Líbano aprofundará suas raízes; seus brotos crescerão. Seu esplendor será como o da oliveira, sua fragrância como a do cedro do Líbano. Os que habitavam à sua sombra voltarão. Reviverão como o trigo. Florescerão como a videira, e a fama de Israel será como o do vinho do Líbano” (Os 14.4-7).

 

Podemos destacar pelo menos três aspectos desta cura:

1. Cura que nos firma na presença de Deus com raízes mais profundas. “Serei como orvalho para Israel; ele florescerá como o lírio. Como o cedro do Líbano aprofundará suas raízes; seus brotos crescerão”. O arrependimento aprofunda nossas raízes em Deus. Deixamos de ser autoconfiantes e nos tornamos pobres em espírito, e desse modo somos bem-aventurados. Não confiamos mais em nossos cavalos de guerra, mas no Senhor poderoso. Ele nos cura da inconstância. Passamos a ser pessoas mais firmes, arraigadas e alicerçadas em Cristo. Não mais como meninos levados de um lado para o outro, ou como o ímpio que se dispersa como palha. Passamos a ser como o bem-aventurado do Salmo primeiro: plantado à beira de águas correntes. Uma vida arrependida traz a convicção de que jamais somos provados além das nossas forças (1Co 10.13). Passamos a depender mais do Espirito Santo de Deus, “a fim de que as justas exigências da lei fossem plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.4). O arrependimento te torna alguém enraizado, ligado em Cristo, na igreja, no corpo de Cristo, na história, na tradição. Você deixa de ser cristão raso, superficial, banal. Sejamos discípulos arrependidos, obedientes ao Senhor.

2. Cura que gera crescimento, frutos, expansão. “Seu esplendor será como o da oliveira, sua fragrância como a do cedro do Líbano”. É necessário ter o fruto que mostre o arrependimento (Lc 3.8). Assim como o homem de fé tem sua esposa como videira e seus filhos como brotos de oliveira ao redor da mesa, assim é o arrependido. É alguém abençoado, que cresce, que frutifica. Ele passa a ter um perfume, o aroma de Cristo. Aprendi que não se pode fingir ser cheiroso. Quem está com mal cheiro, com mal cheiro está! Não se pode fingir o contrário! Não tem jeito. Quem tem bom cheiro, tem bom cheiro! Quem tiver Jesus Cristo, terá a fragrância de Cristo. Fragrância agradável como dos cedros do Líbano (Ct 4.11). Como o óleo que desce da cabeça à barba e da barba à orla das vestes, e como o orvalho de que desce de Hermom à Sião (Sl 133), assim é com o arrependido. A bênção dele se difunde, cresce, expande, vai além, escorre, transborda, muda a atmosfera. Quem roubava passa a ser um doador. O mentiroso, passa a anunciar a verdade.

 

3. Cura que atrai outros, que traz alegria completa. “Os que habitavam à sua sombra voltarão. Reviverão como o trigo. Florescerão como a videira, e a fama de Israel será como o do vinho do Líbano”. Há uma ressurreição, um reavivamento. Os arrependidos tornam-se agregadores, como Zaqueu arrependido, que restituiu o que porventura havia roubado. Ele tem mudança de atitude, de postura, de nome, de fama. O coração violento se torna um coração que ama a Deus e toda a humanidade. Os discípulos de Cristo impactaram o mundo com uma vida curada, uma vida arrependida. Em pouco tempo o império romano sentiu as profundas atitudes de amor e misericórdia dos primeiros cristãos. A fé cristã foi e até hoje é força motriz no combate à injustiça, desumanidade e intolerância.

 

Deixemos os ídolos de lado! Destronemos os deuses falsos! É tempo de arrependimento. “O que Efraim ainda tem com ídolos? Sou eu que lhe respondo e dele cuidarei. Sou como um pinheiro verde; o fruto que você produz de mim procede” (Os 14.8). Arrependimento é abandonar ídolos e voltar ao caminho de Deus. Nosso Deus quer misericórdia, não holocaustos. Jesus está na mesa, os pecadores podem encontrar abrigo à sua sombra, à sombra do onipotente. Jesus é nossa proteção, nosso Salvador. Que nos alegremos nele! Deus é mais glorificado em nós quando mais nos satisfazemos nele.

 

O arrependimento nos faz melhores. Jesus veio nos curar das nossas enfermidades espirituais. Ele é o Médico que dá vida eterna. Abandonemos a inconstância, a infidelidade abjeta. Deixemos de lado as obras infrutíferas das trevas, as insinceras desculpas que damos aos nossos pecados. Jesus Cristo está voltando! Passemos a ser pessoas reconciliadas com a vida, a valorizar o que temos. Aprendamos a sorrir com mais frequência. Não tenhamos mais uma alegria vã, fundada em fama, prazer, bem-estar ou ausência de problemas. Mas uma alegria completa, fundada no nível mais profundo da existência. Ouçamos Oséias 14.9: “Quem é sábio? Aquele que considerar essas coisas. Quem tem discernimento? Aquele que as compreender. Os caminhos do Senhor são justos; os justos andam neles, mas os rebeldes neles tropeçam”.

 

 

 

 

 

[1] SPROUL, Robert Charles. Essential truths of the Christian faith. Illinois: Tyndale, 1992, p.193.

[2] PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. São Paulo: Companhias das Letras, 2006, p.14.

[3] CALVINO, João. A verdadeira vida cristã. São Paulo: Novo Século, 2000, p.50.

Comments are closed.